Crónica da Invasão da Ucrânia, à distância – LXXX – Até quando, Putin?

Nota da Direcção: O desdobramento das Crónicas do Professor Mendo Henriques estão agora desdobradas num novo bloco, devidamente numeradas para facilitar a leitura.

Crónica da Invasão da Ucrânia, à distância – LXXX

22 de novembro

. Até quando, Putin?

Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência? Deverá ser a mais conhecida frase dos célebres discursos de Cícero contra Catilina, o estadista romano que deixou um rasto de morte atrás de si.

Até quando, Putin? É a pergunta que parece começar a passar dos opositores do Kremlin para as massas.

Segundo especialistas (Meduza, SOTO) haverá cerca de 15% de oposicionistas na Rússia, uns 60 a 70% que seguem o poder e outros 15% a 20% de nacionalistas fanáticos; mas os hesitantes estão a aumentar e os media do regime, com a missão de propaganda e contra-informação, têm de se ajustar às dúvidas crescentes sobre a guerra. Em particular a televisão.

Os talk shows da televisão russa são uma experiência alucinatória, uma espécie de pesadelo filmado em cenários que parecem uma mistura sombria de game show e filme de terror.

Os operadores de câmara são mesmo bons em induzir a vertigem nos planos de imagem em que passam os discursos aparentemente enlouquecidos dos anfitriões e convidados. E, no entanto, no meio desse ninho de cucos, a contra-informação tem de responder a novas preocupações porque a guerra está a correr mal. De mal a pior, aliás.

Os talk shows seguem um roteiro em que um dos participantes é escolhido para fazer a contra-argumentação, colocar perguntas difíceis, ter uma opinião diferente e mesmo contradizer o anfitrião. Depois torna-se no saco de pancadas do talk show, o homem de palha a abater. Num regime de pós-verdade, muito semelhante ao que Trump tentou instalar na América, nada é verdadeiro, tudo é possível, como explica Peter Pomantsarev. O público adora.

Vladimir Solovyov, a “voz de Putin”, já disse de tudo no seu programa.

Notícias em que dia sim, dia não, afirma que é inevitável a guerra nuclear com o Ocidente. Neste domingo com o seu habitual sorriso de malvado afirmou que é preciso varrer Kyiv e Kharkiv da face da terra. Um dos convidados, Yaakov Kedmi veio confrontá-lo. “É obsceno; não é construtivo; é criminoso bombardear cidades pacíficas”, interveio. “Essas coisas nem deveriam ser ditas – ‘varrer uma cidade da face da Terra’ é obsceno.Solovyov opôs-se mas Kedmi insistiu. “Existem 1.001 maneiras de lutar sem tocar em civis.”

Vladimir Solovyoy

Outro episódio passou-se nos 60 minutos, o talk-show conduzido pelo casal maravilha Eugene Popov e Olga Skabeeva, conhecida como “a dama de ferro do putinismo”. Desde há anos que zurzem a oposição democrática e desde fevereiro, a Ucrânia. No último sábado, Popov começou a interrogar-se. Mas todos os produtos russos dependem de peças do Ocidente. Os aviões. Os automóveis. Os medicamentos. E continuou nisto um minuto. Foi interrompido várias vezes. Mas voltou ao discurso. Os convidados entreolharam-se do que + é russo, é Os membros do show 

Um outro episódio do fim de semana foi no talk-show de jovem Ivan Trushkin, (herdeiro de Solyvyov se este tiver morte prematura).

A certa altura o especialista Viktor Olevich começou a questionar a capacidade das forças militares russas em Kherson. Perdeu o som do microfone. Trouxeram-lhe um microfone portátil e ele continuou. E mesmo assim, os participantes pareceram não ouvir. Trushkin informou Viktor das “más notícias” sobre o mau funcionamento do microfone e passou a outro.

..debates !!!

Aa audiências russas de TV estão sedadas por vinte anos de propaganda e parece engolir tudo. Então por que motivo Solovyov, Skabeskaya e Trushkin têm de seguir roteiros cada vez mais difíceis? Porque a guerra da Ucrânia deixou de ser percebida como operação especial. Em vez disso, é agora uma operação contínua de assassinato em massa. Aos russos chegam mais depressa as notícias dos seus mais de 100.000 mortos e feridos na frente militar.

A receita da hiper normalização na informação é conhecida. Semeie confusões em todos as direções para que ninguém mais saiba a verdade; quando as pessoas já não sabem distinguir entre factos e ficção, preferem seguir os autocratas. Mas se o autocrata traz a o desastre, que fazer?

Na Rússia, “o vento está a mudar de direção”.

Até quando Putin continuará a ser útil? Quando começará a ser visto como um perdedor?

Até quando, Putin?

Amanhã é outro dia.

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Crónica da Invasão da Ucrânia, à distância – LXXIX

17 de novembro

. Onde está Surkov?

 

Eminência parda, grande encenador, Rasputine 2.0.

Durante vinte anos, de 1999 a 2020, Vladislav Surkov foi considerado a sombra de Vladimir Putin (Ver Crónica de 7 de abril). Era o homem que instruía o ponto de vista ideológico e que concebeu o plano de propaganda nas televisões oficiais; uma mente brilhante e maquiavélica ao serviço de grandes poderes, com vários lemas conhecidos entre eles diga sempre o que pensa; nunca diga o que sabe.

Em Abril deste ano, o Newsweek noticiou que Surkov foi colocado em prisão domiciliar, por alegado desvio de fundos destinados aos separatistas do Donbass. O advogado russo Feigin e o conselheiro ucraniano Arestovich acreditam que sim.

Que se passou então, e entretanto?

Quem é Surkov e onde está? Não é fácil responder …

  • O vice-primeiro-ministro Sergey Ivanov, o primeiro vice-chefe de gabinete da administração presidencial da Rússia Vladislav Surkov e o CEO da ROSNANO, Anatoly Chubais,// Dmitry Astakhov / RIA Novosti

Nascido em 1962 ou 1964, conforme as biografias, de pai checheno e mãe russa étnica, ambos professores em Duba-yurt, na Chechénia, chamava-se de origem Aslambek Dudayev. É possível que tenha escrito livros de ficção política como pseudónimo de Natan Dubovitsky, influenciado por autores como Allen Ginsberg.

Após passar pelo setor privado até aos 35 anos, veio a ocupar diversos cargos governativos de topo e foi conselheiro principal de Putin entre 2013 e 2020.  Mas qualquer que fosse o cargo no governo, Surkov marcava as políticas, enfant terrible da política russa.

Durante dez anos, entre 1988 e 2006, Surkov operou no setor privado, em particular nas relações públicas e publicidade nos negócios de Mikhail Khodorkovsky; nos bancos de Mikhail Fridman; na empresa de petróleo Transnefteproduct; e no canal de televisão ORT. Segundo Sergei Ivanov, ex-ministro da Defesa, Surkov serviu na Diretoria Principal de Inteligência do Estado-Maior (GRU) quando cumpriu serviço militar na Hungria. Mas foi sempre mais um homem do bloco de Poder (vlast) do que do bloco de Segurança (Siloviki).

Em 1999 iniciou a carreira política, sendo nomeado vice-chefe do gabinete presidencial e muito rapidamente emergiu como o Rasputine 2.0. Debatia-se na época no círculo íntimo do presidente, nas elites governamentais e mais tarde no partido Rússia Unida que marca deveria o presidente imprimir na vida política. Bastaria glorificar a sua pessoa ou seria preciso uma fórmula ideológica? Em 2006, quando Aleksei Chadaev publica Putin: a sua ideologia provocou um rebuliço. Houve quem apoiasse a necessidade de reconhecer uma ideologia, outros mostraram notória falta de entusiasmo.

Foi então que Surkov emergiu como o grande arquiteto dos conteúdos ideológicos e da embalagem mediática.

Lançou o conceito de “democracia soberana ou gerida” (suverennaia demokratiia) para definir a natureza do regime e a posição da Rússia no cenário mundial (Okara 2007). Segue-se daqui uma série de perversões: a concentração de poderes no Presidente; a eliminação gradual da influência da Duma do Estado e do Conselho da Federação; a importância adquirida pelo Conselho de Segurança e o bloco dos Siloviki; a dissolução dos meios de comunicação independentes; as eleições passam a ser um teatro com resultados decididos antecipadamente, mesmo que haja votação real; o reforço da componente nacionalista na ideologia oficial; a transformação do poder judicial em órgão político punitivo dos opositores ao regime. O resultado foi a castração das instituições democráticas.

Como um dos criadores da ditadura pós-moderna, Surkov despreza a cidadania; não considera os russos prontos a participar na gestão do país por meios democráticos; precisam do patrocínio de um regime autoritário e o país precisa de um teatro político permanente. Com o teatro de massas de Surkov, a política russa começou a tornar-se uma operação militar especial. “É muito provável que a política oficial seja uma operação especial, onde as pessoas dizem uma coisa, pensam outra, fazem uma terceira, mas querem uma quarta. Aliás, o resultado, é uma quinta” –escreveu Surkov no artigo “Tempo ao invés”, em fevereiro de 2001.

Peter Pomerantsev, um dos grandes conhecedores e críticos de Surkov escrevia em 2011: Na Rússia contemporânea, diferentemente da antiga URSS ou da atual Coreia do Norte, o cenário está sempre a mudar: o país é uma ditadura pela manhã, uma democracia na hora do almoço, uma oligarquia na hora do jantar, enquanto, nos bastidores, empresas petrolíferas são expropriadas, jornalistas mortos, biliões desviados. Surkov está no centro do espectáculo, a patrocinar skinheads nacionalistas num momento, a apoiar grupos de direitos humanos a seguir. É uma estratégia de poder baseada em manter a oposição em estado de confusão, uma mudança de forma incessante que é imparável porque é indefinível.

A doutrina da “democracia soberana” entregou ao Estado o controlo dos meios de comunicação de massa, sobretudo todos os canais de televisão. Seguindo o exemplo de Gleb Pavlovskii, Surkov lançou ainda plataformas de media, portais online e uma agência de notícias. Organizou a juventude pró-presidencial (Nashi), e o movimento Rússia Justa (Spravedlivaia Rossiia). A Rússia iria liderar a globalização com uma “marca” ou “voz” específicas: iria ser uma grande potência atraente, com um novo nacionalismo, uma economia moderna, e ferramentas de softpower.

Surkov era contra qualquer regresso à experiência soviética e ao destino euro-asiático.

Em vez disso, a identidade nacional deveria identificar-se como “Europa alternativa” e apoiar todos os movimentos da direita e extrema-direita, como efetivamente sucedeu e sucede nos apoios a Trump, Brexit, Le Pen, Salvini e outros (Surkov 2010; ver também Sakwa 2011b).

A reforçar esta orientação eurocêntrica, Surkov foi o inventor da narrativa A Ucrânia não existe, adotada por Putin.

E como organizador de consensos e diretivas desempenhou um papel primordial na estrutura ideológica que abriu o caminho à invasão da Ucrânia em 2014. Como a Ucrânia não existe, a imposição de relações fraternas pela força é o único método com eficácia provada. Após 2014, recomendava cortar as negociações com Kyiv e a anexação pura e dura do Donbass.

Em 2019, Kyiv tornara-se uma dor de cabeça para todos: a chantagem falhada de Donald Trump sobre o presidente Volodymyr Zelensky foi a causa do primeiro impeachment do “homem laranja”.

No Kremlin, debatia-se o que fazer da guerra em câmara lenta no Donbass. Vladislav Surkov envolveu-se em discussões com Dmitry Kozak. Muito está por apurar nos dossiers da DPR e LPR em que existe a habitual mistura tóxica de manipulação polpitica e corrupção económica:

Certo é que em fevereiro de 2020 Surkov pediu a demissão do cargo, o que foi aceite. Em entrevistas a Vladimir Solovyev e Alexei Venediktov afirmou que renunciava porque o “contexto” mudou. Kozak manteve-se como vice-chefe da casa civil de Putin e homem forte do Bloco do Poder e Putin foi evoluindo para a invasão armada de toda a Ucrânia.

Surkov mergulhou na vida privada até ser, alegadamente, colocado em prisão domiciliar .

  • Surkov e Putin ALEXEI NIKOLSKY /AFP VIA GETTY IMAGES

Não sabemos quando, nem como, nem se, irá reemergir na vida pública russa.

Amanhã é outro dia.

 

 

 

 

 

 

 

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