Putin tem os dias contados

Posfácio

Damos à estampa o Posfácio do Livro “Amanhã é outro dia “, Crónicas da Guerra da Ucrânia ( à distância ) de Mendo de Castro Henriques

O primeiro parágrafo dos Irmãos Karamazov, um dos grandes romances identitários da Rússia, descreve a figura do pai, Fiódor Pavlovitch, como esperto e capaz de enriquecer a partir dos dotes das suas duas mulheres, mas que acima de tudo é uma criatura insensata: e o livro encarrega-se de mostrar como a insensatez do pai é repudiada por cada um dos filhos à sua maneira.

Essa é a história presente da Rússia e dos tempos apocalíticos que vivemos.

Vladimir Vladimirovich Putin faz parte da galeria dos governantes mundiais insensatos. Casou-se com o gás e o petróleo da Sibéria, a ponto de não sabermos se é a GAZPROM que domina o estado russo ou vice-versa.

Desde finais de 1999 governou a Federação Russa com mão de ferro e trabalhou pela construção de um mundo russo – russky mir – culturalmente mais extenso do que a Federação Russa.

Mas a insensatez fê-lo dar um passo maior que a perna. 8 anos após a invasão da Crimeia e do Donbas imaginou que poderia invadir e dominar toda a Ucrânia, como antiga colónia perdida. A guerra que deveria durar três dias e na qual já foi derrotado estrategicamente, entrou agora no quinto mês.

O ainda presidente da Rússia, o único bilionário russo que não faz as operações de cirurgia plástica em Londres mas em Moscovo, vai deixando cair as máscaras que usou para justificar a operação Z.

Primeiro era a desnazificação e desmilitarização da Ucrânia. Depois passou a ser a retomada de territórios, comparando-se ao czar Pedro I. As suas ações podem parecer um esforço para restaurar a União Soviética, ou o império czarista. Na realidade, correspondem ao fim do último império europeu, um trabalho que ficou incompleto em 1991, como descreveu Yegor Gaidar, ex-primeiro-ministro da Rússia. Habituados como estamos a pensar em impérios ultramarinos, não nos apercebemos que as colónias russas são contíguas ao território da metrópole.

Numa era de globalização, a guerra de Putin não é dirigida apenas contra a Ucrânia, mas contra os princípios e convicções que ligam as sociedades através da liberdade, da justiça e da dignidade. As consequências desta guerra são sentidas em todo o mundo, quando se trata de segurança alimentar, e dos preços das energias. E o imenso pesar pelas vítimas de todas as guerras, no caso, a perda de vidas ucranianas e o drama dos que buscaram refúgio por toda a Europa, incluindo Portugal, tem movido ajudas e solidariedades que servem de contrapeso às desgraças a que assistimos.

Em tese, trata-se da questão de saber se a violência pode ser combatida com violência, ou se a paz só pode ser alcançada sem armas. É claro que tais questões merecem ser discutidas tendo presente as terríveis consequências da guerra, e mormente da guerra nuclear. Mas a atitude correta é ajudar as vítimas de uma guerra de agressão para que a injustiça não triunfe sobre o direito; para que a força bruta não prevaleça como instrumento político, e a paz não se alcance por meio de violência; a justiça é o pré-requisito para a paz. O ideal da não-violência exige a superação da violência por meio da lei. Em última análise, existe um imperativo de solidariedade para com os mais fracos.

A guerra de Putin é dirigida com uma violência e um cinismo, que não víamos na Europa desde a segunda guerra mundial, contra uma ordem europeia baseada na paz: Putin quer regressar à lei do mais forte, a um mundo onde os mais poderosos impõem a sua vontade aos mais fracos. É contra esta perversão que os amigos da liberdade em todo o mundo acorrem a juntar-se à Ucrânia.

A tentativa insensata de conquista da Ucrânia trouxe a Putin o isolamento internacional com a exceção mas também a hipoteca da China e da Índia. A aliança atlântica uniu um governo norte americano muito mais contido com uma União Europeia muito mais confiante e que aceitou a candidatura da Ucrânia a estado membro. A NATO ficou reforçada com a adesão da Suécia e da Finlândia confirmada a 28 de junho. O G7 declarou o apoio financeiro e humanitário à Ucrânia enquanto a guerra continuar. As sanções económicas e financeiras decretadas por quase 50 nações estão a levar a uma asfixia de componentes essenciais da economia russa, tornando-a incapaz de competir num mundo impiedoso.

Com a invasão da Ucrânia, Putin destruiu muita coisa. Destruiu a identidade comemorada a 9 de Maio da vitória de Moscovo sobre o nazismo, uma realidade que ajudava à identidade nacional e à reputação internacional da Rússia. Agora, após dezenas de milhares de civis ucranianos mortos em bombardeamentos e massacres, desaparece esse capital.

Putin discursa como um general branco da guerra civil, e não o coronel vermelho que foi antes da queda do regime soviético. Numa visão sem apelo nem interesse para os vizinhos, saída da cabeça de um insensato, declarou a Ucrânia uma ficção.

A anexação da Crimeia e partes do Donbass pela Rússia em 2014, tornou os ucranianos desconfiados. Após o 24 de fevereiro, ficaram inimigos dos russos e a heroica resistência ucraniana, bem representada pelo presidente Zelensky, ditou a derrota estratégica de Putin. Conforme sugeriu o chefe dos Serviços de Inteligência Militar da Ucrânia, major-general Kyrylo Budanow, o presidente tem os dias contados no Kremlin A derrota da Ucrânia levará a uma mudança na liderança da Federação Russa. E não se trata apenas da saúde de Putin que não está em boa forma psicológica e fisicamente. Trata-se de um golpe de palácio em desenvolvimento.

Do modelo de análise destas crónicas decorre uma previsão para o fim do conflito:  o colapso do atual regime do Kremlin. Vai funcionar em ricochete o princípio enunciado por Vladimir Karamurzaa agressão externa é a outra face da opressão interna. O falhanço da agressão externa face aos objetivos declarados, vai determinar a insatisfação das populações da atual Federação Russa. Os impérios nascem no campo de batalha, mas morrem através das representações sociais. Os impérios coloniais europeus não caíram devido à derrota militar, mas porque as respetivas populações consideraram inviável a continuação.

Quando soldados e unidades militares de etnia russa – não os chechenos nem os mercenários – sentirem o vazio da missão que os forçou a serem criminosos de guerra; quando crescer a indignação e a agitação social e esses protestos incluírem as famílias desses militares; quando os russos reconhecerem, por entre as trevas da televisão oficial, que têm um  perdedor como governante; as tropas e os seus oficiais e comandantes decidirão que têm uma missão mais importante do que tentar destruir a Ucrânia e que é marchar sobre Moscovo ou apoiar um golpe no Kremlin.

Ao defenderem os verdadeiros interesses do povo russo pelo qual deveriam lutar, deixarão Putin indefeso. A sua cleptocracia e a invasão da Ucrânia só terminará mediante ações desse tipo. Militares conscientes de uma guerra sem destino, nem vitória que mudam o regime não são inéditos na história do século XX, mesmo no século XX russo.

Amanhã é outro dia.

28 de Junho de 2022

Mendo Henriques

  • Capa do Livro

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009. Lutamos arduamente pela defesa do interior, o apoio às famílias e a inclusão social. Batemo-nos pela liberdade e independência face a qualquer poder. Somos senhores da nossa opinião.
Esta entrada foi publicada em Federação Russa, Opinião, Ucrânia com as tags , , , . ligação permanente.

2 Responses to Putin tem os dias contados

  1. Ana diz:

    Eis uma visão que me parece mais” honesta ” e” lúcida”. Não sabemos tudo, nem a verdade toda, tentamos ferozmente acreditar que estamos do lado certo da história e o guiamo-nos pelo que diz a história, também pelos nossos princípios, a ver vamos….

Os comentários estão fechados.