Ucrânia: a estupidez e a hipocrisia andam à solta!

Ucrânia: a estupidez e a hipocrisia andam à solta!

  1. Todas as guerras são horrendas, causam morte, destruição e sofrimento, e deixam marcas para toda a vida, como sei por experiência própria. Infelizmente são uma realidade que acompanha a Humanidade desde a sua existência.

A Guerra que se trava hoje na Europa, espoletada pela intervenção do exército da Federação Russa na Ucrânia não foge à regra; mas o facto da Federação Russa e alguns países da NATO – que indiretamente (?) apoia a Ucrânia – serem potências nucleares, tornam-na ainda mais assustadora e de imprevisíveis consequências mundiais.

A primeira coisa que é necessário dizer sobre esta Guerra é que ela se trava entre países capitalistas e, sendo assim e como diria Sartre, “quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem”.

Esta guerra não nasceu de geração espontânea, nem é fruto da mente tresloucada de um líder, como nos querem impingir. Na verdade, ela começou quando os EUA/ NATO, não honrando o acordado com a ex-URSS/Gorbatchov em 1990 decidiu (com o cúmplice silêncio do governo português e do PR de então), expandir-se para Leste. A Ucrânia era a peça que faltava para completar o puzzle.

Aproveitando-se da alteração política ocorrida na Ucrânia após os acontecimentos de Maidan em 2014 que colocaram no poder a direita e a extrema- direita, os EUA e os países europeus tudo fizeram para aliciar a Ucrânia a aderir à NATO e à UE, que acabou mesmo por colocar na sua Constituição esses objetivos. E na Conferência de Segurança de Munique realizada no passado dia 19 de Fevereiro, o Presidente da Ucrânia foi mais longe, admitindo mesmo que o seu país estava a considerar seriamente a produção de armas nucleares.

Entretanto, fazendo tábua-rasa dos acordos de Minsk, o exército ucraniano continuava a dizimar populações de origem russa na região de Donbass, e o Governo em Kiev iniciava uma campanha para banir a língua e a cultura russas.

Estes são factos comummente dados como provados. E é baseado neles, e não por qualquer preconceito ou estado de alma, que se impõem as perguntas: o que deveria então fazer a Federação Russa?

Cruzar os braços e assistir impassível e serena ao cerco militar, económico e político que lhe estava a ser feito, ou reagir? E reagir, como?

Na mesma moeda e colocar bases militares dotadas de armas nucleares fora das suas fronteiras, iniciando uma 2ª guerra fria e uma nova corrida aos armamentos? Ou impor pela força à Ucrânia uma solução negociada que trouxesse Paz à região e afastasse o espectro de uma 3ª guerra mundial? Por muito que custe a admitir, é bastante óbvio o que seria racional acontecer.

2. Recusando a dicotomia simplória de dividir os beligerantes entre bons e maus, importa também considerar as razões que os EUA, os países ocidentais, a NATO e a EU invocam para condenarem a invasão da Ucrânia pelo exército da Federação Russa e, indiretamente (?) apoiarem política, económica e militarmente a Ucrânia no seu esforço de guerra.

São essencialmente dois os argumentos utilizados e que devem ser considerados: o primeiro, de ordem geopolítica, baseado no facto de a Ucrânia querer pertencer à NATO e à EU, assunto que só aos ucranianos diz respeito; o segundo, de ordem jurídica, considerando que a Federação Russa ao invadir com o seu exército a Ucrânia violou o Direito Internacional, o que é verdade.

Importa, contudo, dizer algo mais sobre estes argumentos:

Quanto ao primeiro, é inquestionável que a Ucrânia tem todo o direito de querer pertencer à NATO e à EU. Exatamente o mesmo direito que essas Organizações têm de não a querer aceitar. Porém, ao contrário do que aconselhava o bom senso, em vez de persuadirem o Governo da Ucrânia a desistir da ideia, explicando-lhe as consequências e os perigos que comportava, os EUA, a NATO e a EU tudo fizeram para a ideia avançar. O resultado está à vista.

Quanto ao segundo, ele tresanda tal é a sua hipocrisia.

Como diz Noam Chomsky, “o desprezo das superpotências pelo quadro jurídico internacional é tão frequente que já passa quase despercebido (…), e quando o Conselho de Segurança da ONU tentou aprovar uma resolução a apelar a todos os países, sem mencionar algum, que respeitassem o Direito Internacional, os EUA vetaram-na, proclamando alto e bom som, que são imunes à Lei Internacional”. De facto, o cadastro dos EUA/NATO de intervenções noutros países violando o Direito Internacional, algumas ainda recentes, é extenso e conhecido, pelo que não vale a pena mencioná-lo. Mas já valerá a pena perguntar: alguma vez foram sancionados por isso?

3. Como não poderia deixar de ser, por detrás dos aspetos mais visíveis desta Guerra (geopolíticos, geoestratégicos, pulsões nacionalistas e outros), escondem-se grandes interesses económicos. O complexo militar industrial dos EUA precisa de continuar a produzir e a vender armamento; e o lobby americano de gás liquefeito há muito que quer substituir a Federação Russa no fornecimento de gás à EU.

A pressão exercida sobre a Alemanha, com êxito, para não certificar o gasoduto North Stream 2 é já uma consequência desta Guerra, com óbvio prejuízo da Alemanha, sobretudo para o povo alemão, que não tarda irá pagar o m3 de gás bem mais caro que atualmente.

Por ironia, ao mesmo tempo que a EU impõe pesadas sansões à Federação Russa, não prescinde do seu gás!

É claro, pois, que esta Guerra pouco ou nada tem a ver com a democracia (apesar da tolerância do governo ucraniano com movimentos neonazis, ou com a ilegalização do Partido Comunista Ucraniano desde 2017), nem com a defesa dos “valores ocidentais”.

Sabemos que Vladimir Putin,  presidente russo “não é flor que se cheire”; mas Volodimir Zelenskii

Volodymyr Zelensky

presidente ucraniano, ou Victor Orban, 1º ministro da Hungria, país que faz parte da EU, são menos fedorentos?

Vladimir Putin

E que dizer da relutância dos países da EU, especialmente a Polónia, em receber refugiados de África e do Médio Oriente e que agora recebem os ucranianos (ainda bem que o fazem) de braços abertos?

E que “valores ocidentais” são esses que permitem que os EUA há quase 20 anos tenham presos em Guantánamo cidadãos sem culpa formada e sem julgamento? Ou que servem para condenar a censura de informação em Moscovo, mas que já permitem censurar a informação de lá vinda, privando os cidadãos americanos e europeus de ter acesso a outra visão da realidade, e poderem formar a sua própria opinião? Eis a hipócrita práxis de “dois pesos e duas medidas” a que já nos habituaram as “democracias liberais”!

4. Seja como for, ninguém fica indiferente às imagens de horror que todos os dias nos entram casa adentro. Importa parar quanto antes esta Guerra. E isso não se faz ajudando militarmente a Ucrânia, como estão a fazer os EUA e a UE, antes pelo contrário, pela simples razão desta Guerra ser assimétrica; ou seja, como nos dizem os especialistas militares, mais tarde ou mais cedo, a Ucrânia capitulará. Então, só por bravata nacionalista ou estupidez fará sentido continuar a guerra.

Tão pouco ajuda exigir à Federação Russa que retire o seu exército para as suas fronteiras pré-invasão, como têm escrito alguns líricos de esquerda. Tal pueril exigência implicaria que a Federação Russa admitisse que tudo foi um equívoco e pedisse desculpa aos ucranianos! Ora, isso é um completo absurdo.

Parar a Guerra, goste-se ou não, é reconhecer que a Ucrânia deve aceitar as condições já apresentadas pela Federação Russa (desmilitarização, neutralidade face à NATO e à EU, reconhecimento da independência das Repúblicas de Donetsk e de Lugansk e reconhecimento da soberania da Federação Russa sobre a Crimeia), como base de negociação.

Quanto mais depressa isto se fizer e se der a vez à diplomacia, mais se estará a contribuir para pôr fim a este pesadelo, começar a sarar as feridas e contribuir para a Paz Mundial.

O Governo português, infelizmente, não tem estado do lado da Paz.

Em vez de respeitar o espírito e a letra da Constituição da República (Artº 7 pf 1 e 2) saindo da NATO, participa na sua expansão; ao invés de trabalhar para a solução pacífica dos conflitos internacionais, envia armamento letal para um dos lados.                                    Então, a luta pela Paz torna-se indissociável da luta mais geral dos trabalhadores contra o Governo, e por um país mais justo, mais solidário e mais igualitário.

  • Manuel Oliveira, Colunista e Correspondente do Jornal de Oleiros
  • 11 de Março de 2022

 

 

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17 Responses to Ucrânia: a estupidez e a hipocrisia andam à solta!

  1. Henrique diz:

    Caro Manuel Oliveira tenha compaixão detidos os que morrem inocentemente.
    A sua visão PCP é clara.

  2. Ana Moncado diz:

    Nem que fosse verdade, nenhum país tem o direito de ir para cima do outro.
    Nunca devíamos ter permitido outras invasões, essa sim é a nossa culpa e pode ser o nosso fim. Este dito colunista devia era ter um vizinho que lhe adoptasse a casa, fizesse as necessidades no meio da sala e lhe violasse a mulher – íamos ver quem é hipócrita
    Glória à Ucrânia!

  3. Carlos diz:

    Certa gente deveria tirar as palas dos olhos, defender ditadores não fica bem, defender um genocídio pior ainda. Será que uns trocos vindos de Moscovo umas viagens pagas nos tempos da ex- URSS justificam certas idiotices? Certa gente deveria ir viver e reclamar o que aqui reclamam nos países que tanto defendem.

  4. António Costa diz:

    Mais um vomitado em forma de artigo, pseudo-independente, de um comunista devoto à cleptocrata Rússia.
    Justificar crimes horrendos com outros crimes, branquear a eliminação de opositores, admitir a anexação de territórios pela força, etc.
    Cala-te, imbecil!

  5. Anti-rashista diz:

    Artigo absolutamente abjecto e nojento. Gostaria de saber que região de Portugal o autor estaria disposto a dar caso a Russia nos ameaçasse, tudo em nome de manter a paz.

  6. Umgajoqualquer diz:

    Mas alguém avisa o autor de que a Rússia já não é a URSS e não tem de apoiar todo o genocidio que faz só para contraiar os EUA.

    Artigo vegonhoso que espalha desinformação. Genocidio no Donbass e Lugansk é propaganda do Kremlin para justificar invadir um país democrático e livre como a Ucrânia. Rashistas não passarão. Glória à Ucrânia.

    • Obrigado por nos ler, mas um lamento pelo que escreve e que demonstra desinteresse pela verdade histórica. Lamentamos que nãodeseje estar informado e prefira estar formatado. O nosso jornal é tão aberto que até aceita o Seu comentário impróprio e inadequado. Fique bem.

      • Umgajoqualquer diz:

        Considerando que o seu “jornal” declarou há semana que a guerra ia acabar em horas com uma vitória estrondosa da Rússia diz tudo sobre quem está desinformado e a desinformar. Mantenho o que disse, a minha fonte é a ONU, e a deste “jornal”, qual é? Será o Kremlin?

        Simplesmente vergonhoso defender quem de facto está a invadir e genocidar apenas porque “EUA mau”

        • As fontes deste jornal são as mais diversas, mas credíveis de ambos os lados. E de facto, a previsão de guerra curta falhou lamentávelmente. Foi um desejo não concretizado que a ser realidade evitaria tantas perdas e destruição. É pena “umgajoqualquer” só ter uma fonte e nem nome…Por isso, embora não o desejemos, sem nome não terá qualquer outra resposta.

  7. Antóno Correia diz:

    Muito bom e elucidativo artigo. A formatação da grande mole, fruto de muitos anos de lavagem cerebral, vê se bem nas pessoas que comentaram? O artigo do autor. De facto, é preciso ter coragem nos dias de hoje, para se ir contra a corrente.

  8. Jorge diz:

    Na guerra ninguém é totalmente senhor da razão, nem ninguém é completamente inocente…mas quando o alvo de uma das partes é sobretudo a população civil inocente, aí o AGRESSOR perde toda a racionalidade e nenhuma retórica faz sentido para justificar o injustificável massacre ou genocídio.

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