Memórias de Natal

Memórias de natal

  • Maria Alda Barata Salgueiro

Entrámos na quadra natalícia e com ela o tempo de azáfama e de ansiedade. Faz-se planos de compras, de projetos para o novo ano que se aproxima, mas os verdadeiros entusiastas são os mais pequenos.

Os adultos multiplicam as suas preocupações em encontrar o mais adequado a bom preço, que no fim nunca é o que podia ter sido. Terminadas as festividades sentem-se cansados e aliviados porque o Natal já passou, mas a pequenada vive ainda a sua a magia.

De facto em tempos idos, não muito longínquos, festejar o Natal era um ritual bem mais tranquilo: resumia-se ao encontro entre a família e amigos, em ambiente calmo e mais fraterno.

Os meninos pobres recebiam um pacote de bolachas, um par de meias e os mais abastados um carrinho de madeira, um cavalo de pau e as meninas tinham direito a uma minúscula máquina de costura, a uns tachinhos   de lata, para  brincarem às costureiras ou às cozinheiras. Era maior a felicidade da pequenada no Natal do que no dia dos seus aniversários.

Os adultos, esses desfrutavam as festividades, alusivas ao nascimento do Menino Jesus, celebradas na igreja e era o suficiente para se sentirem abençoados.

Mal seria da humanidade se não evoluísse! Mas apesar de muitos aspetos positivos dessa evolução, também transporta consigo alguns inconvenientes que implicam grande desassossego. As famílias, mais incautas, caem na esparrela do poder persuasivo do marketing, na ânsia de conseguirem, não o que precisam mas o que vêm sonhando. Para muitos essa pseudo – felicidade acaba por se tornar em pesadelo no ano seguinte.

Em conclusão: O espírito natalício tem vindo a ser ofuscado pelo poder do dinheiro.  

Veio-me à memória uma tradição do Natal celebrada no concelho de Oleiros, mais concretamente na freguesia da Madeirã, descrita no trabalho etnográfico com o título:

Etnografia da Beira: Lendas, tradições, crenças e superstições- de Jaime Lopes Dias, vol.V, Editora Torres e c. Livraria Ferin, 1953.

Passo a transcrever um excerto do capítulo referente ao Natal na igreja da Madeirã:

(…) Por 1935 tive a satisfação de ouvir em Oleiros que, em algumas povoações daquele concelho: Madeirã e Sobral, do termo de Álvaro e em Cambas, existia e continuava a praticar-se o costume de os pastores irem, na noite de Natal, durante a missa do galo, com a sua indumentária própria e recitando quadras improvisadas a oferecer ao Menino Jesus, mimos e produtos do campo.

(…) Por isso, os moradores dos pequenos lugares, que vivem disseminados pelos montes, não esperam pelo pôr-do-sol para se conduzirem às sedes das freguesias a fim de, ardendo em carinhosa devoção e amor, adorarem o Menino Jesus em seu presépio e beijarem o seu corpinho nu.

(…) Espalhados pelas casas de parentes e amigos, ceiam ou conversam em volta dos madeiros que, nesta noite, ardem nas lareiras.

(…) O terceiro toque dos sinos…

(…) A igreja regurgita de fiéis.

No guarda-vento da entrada principal da igreja, quatro ou cinco pastores aguardam para, no fim da missa, poderem entrar e exibirem o seu estro poético e entregarem as suas ofertas ao Menino Jesus: cabritos, cordeiros, chouriços, queijos, castanhas etc. Encostados aos seus cajados, a sua manta às costas, seus safões apertados à cinta e às pernas, seu serrão pendente do ombro e seus pífaros (feitos por eles de sabugueiro), antes que o senhor prior comece a dar o Menino a beijar, abre-se a porta do guarda-vento. Sobre a porta do guarda-vento, pendente de uma corda que vai do coro da igreja ao altar onde se encontra o presépio, está uma lanterna de azeite que representa a estrela que guiou os pastores a Belém. Acesa no ato da representação é puxada a corda e anda do altar para o guarda- vento e daqui para o altar. O pastor que entra vai recintando várias quadras ao longo do percurso, como
ex.:

Oh meu menino Jesus,
Oh meu Menino adorado,
Aqui tendes a visita
Dos pobres pastores de gado.

Se algum ponto errar,
Ninguém se deve rir,
A porta do errar é larga,
Todos lá podem cair.

(…)
Venho à noite enfadado
De andar lá pelo monte,
Inda a patroa diz:
-Ó criado, vai à fonte.


Por ter mais civilização
O meu rico patrãozinho
Todos os dias à noite
Me dá um copinho de vinho.

Ao regressar ao guarda-vento, outro pastor entra em cena:

Cá vem o pobre pastor
Que sempre usa o seu cajado,
O seu ofício toda a vida
É andar a guardar gado.

Vem aqui comigo
Um cabrito a saltar,
Cá vos o deixo meu menino,
Aos pés do vosso altar.

Trago-vos umas castanhas
Que tinha enterradas no chão;
Não as roubei a ninguém,
São das que me deu o patrão.

Também aqui vos trago
Um pequenino queijo
P’ra que não vos esqueçais
Dos do lugar do Vilarejo

Em geral cada pastor recita não menos de cinco nem mais de dez quadras, mas quando os aplausos eram mais vivos, então prosseguiam na improvisação focando variados assuntos. A confiança entre o povo e os velhos priores levava a liberdades pouco próprias para o local.
Na Madeirã diziam quadras como as que se seguem:

Oh meu Menino Jesus,
Trago-vos vinho moscatel,
Bem sei que não é pr’a vós
Mas para o senhor Pe. Manuel.

10ª

Trago-vos aqui um coelho
Dentro do meu sarrão,
Senão é pr’o Sr. Pe Manuel
É de certo pr’o sacristão.

Já no adro ouve-se a opinião sobre melhores atores, mas por muitos anos foram, de facto, considerados o Barata do Vilar e o João Lourenço da Madeirã os mais desembaraçados e completos improvisadores da função.

(…)

As quadras transcritas e outras visam críticas, especialmente anotadas: a desumanidade da patroa, o facto de as ofertas do menino redundar em proveito do pároco ou do sacristão. Também os hábitos locais são igualmente retratados, tais como: o enterrar as castanhas em covas (moreiras), para se conservarem frescas por mais tempo, o uso das merendas de milho para a refeição do pastor, o sarrão onde transporta o farnel. Etc.

O autor, por fim, conclui: Não serão evidentes as semelhanças entre a Adoração dos Pastores da Beira Baixa e o Auto Pastoril de Gil Vicente?

Não terá o autor do teatro português ido buscar ao povo da Beira, a que tantas vezes se refere, boa parte do que bem soube traduzir na sua valiosa e interessante obra?

Diferente dos autos e entremeses representados nos adros das igrejas, dos conventos e dos palácios, sem palco próprio (…) a adoração dos pastores do concelho de Oleiros representa, indiscutivelmente, uma das mais curiosas manifestações de tão sentido amor do povo da Beira Baixa ao Salvador do Mundo.

O artigo acima nada mais tem de pretensioso que chamar a atenção dos jovens que se interessam pelas tradições, no sentido os cativar a valorizarem o nosso singular património popular, que nos distingue de região para região e que no seu todo contribui para a identidade do país, e para o seu particular exotismo.

Festejemos o Natal, nós e os meus queridos leitores, com Amor e confiante Perseverança.

Dezembro de 2021

  • Alda Barata Salgueiro, Colunista desde a fundação do Jornal de Oleiros
Maria Alda Barata Salgueiro a trabalhar no Stand do JO na Feira do Pinhal

Sobre Jornal de Oleiros

Nascemos em 25 de Setembro de 2009. Lutamos arduamente pela defesa do interior, o apoio às famílias e a inclusão social. Batemo-nos pela liberdade e independência face a qualquer poder. Somos senhores da nossa opinião.
Esta entrada foi publicada em Destaques, Oleiros com as tags , , , , . ligação permanente.