Xarope de Excremento: Social-Anestesia

OPINIÃO

Xarope de Excremento: Social-Anestesia

  • Francisco Coutinho

    Por todo país, há organizadores de agendas ditas culturais, que optam por contratar
    indivíduos cuja actividade envolve a permanente transgressão de fronteiras, para espectáculos que commumente ocorrem a  céu aberto, com acesso não regulado (portanto, abertos
    às pessoas de todas as idades), com dinheiro público (note-se), em ruas centrais, largos e jardins das localidades.

Refiro-me à boçalidade banalizada e, cada vez mais, institucionalizada.
Sendo que tal dejecção chega ao ponto de ser descrita como um brasão (quando, na
verdade, consiste numa injecção de excremento e de polímeros, que muito desconsidera quem ao lado reside e deseje dar básicos valores à sua descendência).

Há quem não tenha vergonha de descer ao máximo à frente dos filhos (vangloriando-se
ainda por isso). – Uns tais cogumelos que (não querendo conduzir um Punto ou um Clio)
gostam de designar de “cultura popular” aquilo que é uma diarreira de palavras.

Algo que contraria, por completo, as normas para a cidadania (que os educadores, os formadores e os professores nos dão, de forma profissional, atenta e preocupada – desde o infantário).
Um retrocesso, no qual se omite pretensões eleitoralistas.

Anos houve em que certos núcleos de pensadores foram apontados de arrogantes, pelo
método que defendiam como sendo o apropriado para se dar educação ao povo. – Rótulo
que -no meu simples entender e sem querer ofender – teve razão de existir.
Aboliu-se lamentavelmente os distintos cursos das então Escolas Industriais e Comerciais
(históricos e fundamentais estabelecimentos, de onde resultaram inúmeras gerações de
funcionários especializados e consagrados, entre outros), sob pretexto de ministrarem um
ensino pouco dignificante (procurando-se seguir o padrão dos não menos valiosos Liceus).
Era suposto, após a cinzenta ditadura fascista, haver um fomentado acesso ao que de
precioso é feito em cada região do nosso país. E um adequado auxílio à manutenção das mesmas iniciativas.
Recordemos que pelas freguesias de Portugal – do norte ao sul; do litoral ao interior – não
faltam grupos desportivos; grupos de dança tradicional; conjuntos de música verdadeiramente popular;  conjuntos de música moderna; conjuntos de música experimental; vastos eventos; aprendizes e mestres, que por rotina demonstram elevado
potencial e alcançam excelentes resultados – tanto nacionalmente, como internacionalmente – e nada têm como suporte (resumindo-se tal, com
frequência, a pouco mais que um passatempo). Englobo cidadãos com deficiências e cidadãos sem deficiências.
Não se trata, tão-pouco, de uma questão de salário.
É muito mau tentar-se confinar a população jovem ao lugar de intelectual. E é, da mesma
forma muito triste, dar-se à mesma população entretenimento do mais pútrido nível.
Uma ferida destas – como as demais – deveria ser sanada logo no início. Dá-se, no entanto, o oposto.
Induzir-se o povo em erro, canalizando-o para o beco da mediocridade e trancando-o no
frasco da ignorância, é um acto de traição.
Cada vez mais se converte em mera peça de museu, o sangrento legado de todos aqueles
que foram perseguidos; detidos; espancados; exilados; mortos, ao tão simplesmente
procurarem – de forma assumida – condições sociais e cívicas elementares para as suas gentes.
Terá sido com este propósito que, em diferentes alturas, lutadores como Catarina Eufémia;
Humberto Delgado; Ribeiro dos Santos; Alexandrino de Sousa; Max; Maria de Lurdes; Sá Carneiro; Amaro da Costa; José Carvalho, se bateram e arriscaram as suas vidas, bem
como a segurança das suas famílias?

Seria abusivo ou seria mau, a esforçada pátria de Sophia de Mello Breyner, de Agustina, de
António Aleixo, de Agostinho da Silva, de Saramago, de Variações, de José Afonso, de Isabel Silvestre, de Né Ladeiras, de Dulce Pontes, de Teresa Salgueiro, de Elvira Fortunato,
de Edgar Cardoso, de Siza, de Rui Nabeiro, de José Cid, de Paulo Barros, de Fernando Ribeiro, de heróis Paralímpicos e Olímpicos, ter uma aragem menos acidificada?
Findo o longo e infernal Estado Novo (com a sua “Política dos 3 F”), será honesto e
deveras democrático deixar-se disto para a posteridade?

  • * (texto escrito seguindo a antiga grafia)

Sobre Jornal de Oleiros

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